É muito raro eu publicar um texto que não seja meu.
Mas li esse aqui no Facebook da Soraia, que foi a editora dos meus dois livros.
Sim, aquela que fez um trabalho fenomenal e que não gostava que eu dissesse que a Lucia morava no meu saco.
Aposto que ela vai aparecer nos comentários e lembrar que ela deixou essa piada passar, mas que da quarta vez que eu escrevi isso, no mesmo livro, ela se revoltou.
Achei o texto lindo:
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Desde que a Lavínia nasceu conversamos muito com ela. Aliás, acho que já conversávamos assim quando ela estava na minha barriga. Mesmo que ela não compreendesse, sempre explicávamos qualquer situação – boa ou ruim – que estivéssemos enfrentando. Até quando ela ia tomar vacina avisávamos antes. O resultado é que, além de ela ter um vocabulário fantástico, confia demais em nós e se sente segura mesmo em momentos de tristeza.
Ontem fiquei sabendo que a golden do meu irmão, a Wendy, ficou muito doente e não ia resistir. A Lavínia é simplesmente apaixonada por essa cachorra. No caminho para casa, decidi que não ia dizer nada antes que a Wendy partisse, pois não queria que a Ná sofresse duas vezes. Porém, quando ela abriu a porta da sala e eu olhei nos olhos dela, não consegui disfarçar. Ela imediatamente me perguntou o que estava acontecendo. Me abaixei, segurei sua mão e expliquei que a Wendy estava muito doentinha. Nesse momento, o Carlos se aproximou e nós todos ficamos bem juntinhos, chorando baixo.
Lavínia quis saber por que a Wendy estava doente, quantos anos ela tinha. E qual era o nome da doença. Respondi que tinha sido a mesma doença da bisa e que ambas já estavam bem velhinhas. Ela perguntou se todos os velhinhos tinham câncer.
Chorou muito, um choro praticamente inconsolável. Disse que queria ver a Wendy. Expliquei que ela estava internada e não seria possível ir até Bragança para visitá-la. Pediu para ver fotos delas juntas. Mostramos. Prometi imprimir a que ela mais gosta – em que a Wendy está deitada e a Lavi está deitadinha sobre o dorso dela – para ela colocar no quarto e sempre se lembrar da Wendy.
Carlos explicou que a vida é assim, que todos temos nosso tempo e depois morremos. Lavínia disse que tem certeza de que vai encontrar a Wendy de novo. Espero que sim.
Dois pratos de sopa de mandioquinha e seis borrifadas de floral em vez das quatro rotineiras, Lavínia dormiu. Isso nos surpreendeu, pois achamos que ela teria muita dificuldade de pegar no sono. Ao acordar, perguntou se a Wendy já estava no céu.
Às vezes, é muito duro dizer a verdade para nossos filhos. Seria tão bom poder inventar uma história, algo que não os deixasse tão tristes. Mas é nosso dever mostrar como a vida funciona, por mais difícil que ela seja. O importante é estarmos ao lado deles sempre.
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