segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Sobrinhos virtuais

Tenho que confessar meu encantamento com o conceito de sobrinhos virtuais. Quando comecei a escrever aqui era pra mim mesmo, enlouquecido que estava com as mudanças na minha vida, depois a família começou a acessar, os amigos e quando vi já tinha gente que eu não conhecia acompanhando todas as mutações que sofri durante a gravidez e as transformações da Lucia. Seguindo os links nos comentários acabei entrando em um gigantesco universo de mães e grávidas, blogueiras em geral, e alguns gatos pingados que além de serem pais, também topam expor assim o coração ao tapa alheio, oferecendo ainda o outro ventrículo.

Nesse universo conheci blogs muito diferentes entre si, alguns feitos para que a criança leia sobre si mesma quando crescer, outros falando eloquentemente para a comunidade de mães, muitos com textos ótimos, dicas úteis e mesmo um blog com uma triste história em que o pai do bebê morreu durante a gravidez e que faz esse registro emocional para que a criança de certa forma conheça o pai que não teve.

Com o tempo fui percebendo que já conhecia, digitalmente (virtualmente é uma palavra muito mal-usada), várias dessas crianças e suas mães. Da mesma forma, pelo teor dos comentários, percebo um carinho enorme pela Lucia de pessoas que nunca encontrei pessoalmente. Fico sinceramente emocionado. E é isso que entendo como sobrinhos virtuais.

Então aproveito aqui para agradecer à Renata, por organizar um amigo secreto destas pestes que vemos crescer de longe, e a Thaís, que mandou um DVD do Bebê Mais que trouxe alegria à Lucia e alívio aos pais, que precisavam mesmo de uma variada. Sem falar da embalagem prateada que a Lucia teve que disputar a tapa com os gatos!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O fantasma do avestruz mágico, a origem de certas piadas, exoesqueletos como matrioskas e o livro que rebobina.



A Lucia agora é um bebê-que-anda. Esses hífens são uma referência que só velhos pegam, de um tempo que super-heróis não tinham vergonha de usar colant roxo e de ter serventes coloniais. Na verdade eu não sou tão, digamos, vintage, a ponto de ter lido em quadrinhos de jornal o Tarzan, Mandrake e Fantasma(o roxo espírito-que-anda, que era vermelho no Brasil para economizar na gráfica), mas meus tios de Curitiba tinham umas coleções e quando eu visitava lia tudo menos "Tex".

Esse vídeo, em que não sabemos se a Lucia está aprendendo com o avestruz a resolver seus problemas (na verdade isso é uma lenda urbana), tentando dar cambalhota ou fazendo ioga é de antes dela andar. O típico vídeo tremido, com desnecessários zooms no gato e um trabalho de câmera digno de pigmeus bêbados epiléticos. Assistindo ao vídeo e lutando contra o enjôo, a cena me lembrou algo mas não sabia o quê. Então como mágica pendurada em um cipó, a lembrança me atingiu com o impacto de um anel de caveira.

Eu tinha me mudado há poucos meses para Nova York, onde morei por três anos. Uma amiga de mestrado convidou alunos de várias religiões para um almoço na casa dela, seguido de festividades. A ocasião era uma data judaica que nunca tinha ouvido falar chamada Simcha Torah. Como uma fita de máquina de escrever ou um rolo de filme antigo, a Torá, livro sagrado dos judeus, precisa ser rebobinada quando chega ao final e a festa é sobre isso. Fomos para uma sinagoga que, em horários alternados, é também uma igreja. Inacreditável. Só em Nova York, com aqueles aluguéis caríssimos, o padre e o rabino são colegas de sacristia. Eu havia descoberto o lugar onde nascem as piadas, só faltava eles terem um amigo pastor e um papagaio de estimação.

A "Sinagreja" era antiga, muito bonita e estava todo mundo na rua, homens, mulheres, velhos e crianças dançando animadamente de braços dados, fazendo longas filas dançantes que iam pra lá e pra cá em diversos círculos, lai lai lai, hai hai hai. Me diverti horrores pulando que nem um louco, dançando can-can, mas depois desconfiei que as outras pessoas sabiam o que estavam fazendo e houvesse mesmo passos apropriados. Atraído pela possibilidade de me dar bem, afinal era solteiro e só em uma terra estranha, acompanhei uma amiga no trem. Não deu em nada, ela desceu e acabou casando com o filho do premiê de Israel. As mulheres me largam por cada roubada.

Então estava eu sentado nos degraus perto de Washington Square, onde dividia um micro-estúdio com um estranho estudante polonês de psicologia. Passa por mim uma turba de judeus ortodoxos, todos muito jovens e dois deles dão meia-volta e vêm falar comigo. Perguntam se sou judeu. Explico que sou ateu convicto, mas fora isso, pra outros efeitos, sim, pai e mãe. Dizem que estão indo pra uma festa, uma festa muito legal, a gente vai se divertir. Sem nada melhor pra fazer acabo acompanhando eles rumo ao Brooklyn.

Depois de passar pela quarta estação de metrô, atravessando a pé a ponte que liga Manhattan ao Brooklyn, indago qual trem eles querem pegar e ele me informa, casualmente, que eles não pegam metrô no sábado e que a gente vai a pé mesmo. E que era perto! Eu não sabia mas ainda teríamos umas quatro horas de caminhada depois disso para vencer os mais de sessenta quarteirões que ainda nos separavam da festa.

O caminho foi interessante. Me emprestaram um chapéu preto porque tinham vergonha da minha cabeça descoberta. Fiquei com ele porque parecia o Bono. Conversei com algumas mocinhas e em breve fizeram um cordão de isolamento entre eu e elas, como se pudessem ser corrompidas pela minha mera presença. Não seria impossível, já que tentei mesmo argumentar com eles sobre o absurdo de tudo isso. Debater religião com religiosos atesta que eu ainda era muito mané. Eles jamais iriam abrir mão de crer no seu papai noel de preto particular, o rebe.

Horas depois, chegamos à tal Sinagoga e a festa estava no final. Era a maior concentração de judeus bêbados que já vi, todos com o tradicional traje preto hassídico e muito alegres. As mulheres ficavam em alguma outra parte no andar de cima, fazendo ninguém sabe o que.

Todo mundo vinha conversar comigo, me senti o próprio messias, havia uma certa reverência e diziam que eu era “aquele que retorna”, que eu andei tanto e estava lá por alguma razão maior. Me contive pra não falar "vodka grátis". As crianças vinham encostar em mim e queriam ficar por perto. O tempo todo alguém colocava um chapéu na minha cabeça (o anterior foi retomado pelo dono) e me arrastava pro salão, onde tinha um monte de lai lai lai, hai hai hai e um velhinho em cima da mesa distribuindo bebida ao pessoal que fica dançando algo que definitivamente não era can-can em volta da mesa, com crianças nos ombros, possivelmente bêbadas também. Eu ia junto mas não conseguia beber quase nada. Me ofereceram emprego, lugar pra ficar e apesar de isso não ter sido dito, estou certo que alguém ia oferecer a filha em casamento cedo ou tarde. Alguns adolescentes me chamaram pra um canto dizendo que tinham vodka e não tinham nenhuma, ficaram é me enchendo de perguntas.

Vi um velhinho dando cambalhotas no chão como uma criança. E outro, e mais outro. Pensei “gostam mesmo da branquinha ou esse é o bloco do alzheimer”. Devem ter notado minha expressão porque vieram me explicar: “hoje é um dia em que os pés são mais importantes que a cabeça e que dançar é mais importante que rezar.” Aprendi depois que também é uma festa que fala do eterno ciclo de renovação, coisa quase budista ou taoísta sobre ciclos eternos, que mesmo a mais enrugada bisavó já foi uma menina serelepe e sedutora.

Esboçando cambalhotas a Lucia me lembrou de tudo isso, que ao ser um bebê-que-anda ela deixou pra trás o bebê-que-engatinha, que deixou pra trás o bebê-que-cabia-certinho-no-meu-antebraço. E é com estranha saudade que olho pra todas essas Lucias que emergem de si mesmas como cigarras e com que felicidade vi a ecdise de cada Lucia maior, mais esperta e mais interativa, segurando aquela curiosidade de quem quer espiar os próximos capítulos do livro.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A menina de regatas, o pai sonolento e o macaco com uma mão no traseiro



Em uma cena rara, capturada pelo cinegrafista amador Lobo da Jangada com o celular do Padrinho, um momento da vida selvagem de Lucia, papai e macaquinho. Basicamente a Lucia quer a cadeira dela de volta, papai encarna o pequeno símio de pelúcia e na hora ninguém se dá conta que falar com criança usando voz de falsete, mesmo dublando o macaquinho e mesmo sabendo que criança responde melhor a vozes mais agudas, geraria tanta vergonha quando emergisse o clipe. Mas pior mesmo é quando vc passa tanto tempo falando assim que o telefone toca e você atende com essa vozinha e a única saída honrosa é trocar a voz e dizer "Me dá esse telefone aqui! Alô? como assim? não, claro que não era eu não, chefe."

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

As insuperáveis proezas da Aranha-Maravilha, a bebê que foi mordida por uma amazona radiativa.



Com o melhor de dois mundos: ela é a amiga da vizinhança, adepta da não-violência-proposital - porque sem querer já deu cada bifa por aí, inclusive uma bofetada na bochecha inchada de extração de dente da mamãe, que dormia, uma cabeçada no olho do papai que ficou uma semana parecendo um terçol e um arranhão na parte de dentro da pálpebra da irmã mais velha, que corria pela casa gritando "a lucia me atacou!!" - solta fios de baba como se fossem teias de aranha, sobe em tudo e pelas paredes, se pendura nas coisas e jura que tem um avião invisível em algum lugar mas jamais foi capaz de encontrá-lo.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Isso já não é salto quântico e sim a Lucia do futuro sendo subrepticiamente transportada para o hoje

Tudo bem que ela cresce enquanto dorme, cresce enquanto eu durmo e, aparentemente, cresce enquanto todos os chineses e indianos do mundo dormem também.
Coloco um "Bebê Mais" para ela assistir, aparece o macaquinho da abertura e ela grita de felicidade. Ponto pro produto nacional, já que ela é bem blasée quanto ao "Bebê Einstein". A língua pra fora, asseguro, não é uma homenagem ao decomposto físico.
Fica uns minutos de pé na frente da tv depois vem pro pufe onde estou e escala até sentar no meu colo, recosta em mim e fica assistindo entretida, apontando pra tela às vezes. Levanto pra recarregar meu vinho, deixo ela no pufe e quando volto o lugar já era dela, que passou o resto do dvd toda refestelada, dando risada e batendo palmas pro macaco.
Olho pra essa foto e mal me conformo: cadê aquela menininha que cabia no meu antebraço?
Puxa, ela acabou de nascer quase. Dois anos atrás ela era um espermatozóide aqui e um óvulo ali.
Como duas microcoisinhas assim se encontram e em tão pouco tempo, além de sentar que nem gente, mandam em mim?


segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Era segunda e chovia cicuta

Não sou fã de segundas e nesta acordei antes das seis, de ressaca e sem saber direito onde estava. Peguei a Lucia, naveguei entre os destroços do feriado, coloquei ela no cercado e fui preparar a mamadeira, torcendo pra ter alguma limpa e não ter que lavar nada assim antes do sol nascer. Enquanto isso ela simplesmente berrava sem parar, possivelmente acordando toda a vizinhança, já que, só percebi depois, todas as janelas da sala estavam abertas. Dei mamadeira pra ela, que teve a bondade de dormir meia horinha depois de alimentada. Já eu não consegui dormir de novo e fiquei remoendo meus pensamentos segunda-feirísticos, temperados de sono e mau-humor. Ela levanta toda falante, querendo interagir. Apóio os braços no cercadinho e começo a conversar, pergunto "cadê o gato" e ela aponta o dedo pro gato, sempre morro de orgulho quando isso acontece. Ela pega as minhas mãos e bate palma com elas, depois tampa meus olhos e destampa-os de novo brincando de esconder, então põe minhas mãos em suas enormes bochechas e metralha o pai com rajadas de sorrisos e risadas dizendo "aaaahhhhh". Acabo me rendendo e meu dia fica pelo menos 30% menos nublado. Quando mamãe levanta já sou praticamente outra pessoa, capaz inclusive de dar bom dia.

(Esse cabelo da foto fez sucesso no feriado. Não tenho idéia como a berçarista conseguiu fazer isso na pequena, que tende a ser rebelde pra essas coisas. Ou ela ensinou a Lucia a fazer sozinha ou deve ter usado clorofórmio.)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Se um bebê cai no meio da floresta onde não tem ninguém, ele faz algum som?

Ninguém sabe o que os bebês fazem quando estão sozinhos. Possivelmente existem simultaneamente em diferentes estados, como dormindo e acordado ao mesmo tempo, à moda do gato de Schrödinger. Na presença do observador, o bebê-onda de infinitas possibilidades se colapsa em uma particular. Tentei filmar a Lucia em segredo mas ela logo percebeu a câmera e como um elétron safado deduziu que a brincadeira era de esconder, logo entrando no jogo.

O fato dela usar a toalha dessa forma me lembra que quando eu era criança pus uma colcha branca na cabeça e fui acordar meu irmão dois anos mais novo. Eu dizia "UUUUUU" e nada do pobre menino acordar. Comecei a chacoalhar ele enquanto fazia som de fantasma. "UUUUU". No que ele acordou deu um imenso berro e correu literalmente por cima de mim em direção ao quarto dos pais, que de lá emergiram com a fúria do sono perdido e a indignação do meu trote atroz. Acho que levei chineladas suficientes pro meu traseiro brilhar no escuro. Esses pais não perceberam o benefício a longo prazo, meu irmão não se assusta mais com nada.


(Quem repara em decoração vai estranhar a cadeira de escritório, mas sua utilidade compensa muitas vezes sua feiúra.)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

No consultório do Dr Neural.

"Ele veio do nada mas se manteve fiel às suas origens". Foi um longo caminho entre ser um solteirão convicto e estar cercado de mulheres maravilhosas: a Ana, que é linda mesmo inchada como uma meia-lua depois de tirar o juízo e seu respectivo dente, a Maria, que mesmo fazendo birra é uma criança simplesmente adorável e a Lucia, de quem vocês já devem ter ouvido falar.

Acho que parte de ter sido agraciado com tais presentes de grego, digo, dádivas, implica em retribuir ao karma, divindo o pouco que aprendi. Fico feliz em poder ajudar, mesmo com as pequenas coisas, como uma sugestão de mamadeira anti-refluxo aqui, uma segunda opinião sobre ultrassom ali, e outras sugestões e conselhos para os quais não tenho qualificação alguma.

Então, por conta e risco dos perguntantes, está aberto o consultório do Dr. Neural:

Queria uma dica sua. Nossa filha acabou de nascer e temos dois gatos. Estamos preocupadíssimos com a questão dos pêlos. Por mais que tudo seja extremamente limpo, sempre aparece um pêlo aqui outro ali nas coisas dela. Como vocês lidam com isso?

Oi Rafael, parabéns pela filhota!

A questão dos gatos é polêmica e é muito comum surgirem esquadrões anti-gato dizendo que ele vai roubar a respiração do bebê, ensiná-lo a dançar macarena, causar doenças que existem e que não-existem e que seu bebê pode acordar numa banheira cheia de gelo com um certificado de depósito em um banco da Nigéria.

A primeira coisa é se dar conta que é impossível se livrar de todos os pelos felinos e que vira e mexe sua bebê vai ter um pelo (ou chumaço!) na boca. Eles flutuam, são difíceis de pegar e parece que os gatos soltam mais pelos depois da limpeza da casa, tipo "ei, deu o maior trabalho pra deixar essa casa com a minha cara e você limpa tudo, ô desgraçado? bora começar de novo"

O que "funcionou" pra gente foi:

- Rolos de papel adesivo, para roupas e móveis. É bom ter em casa mas gasta muito, dado o suprimento infinito de pelos. No mínimo vale pras roupas pretas.

- Furminator, um cruzamento entre barbeador, arado, ferro-velho e instrumento de tortura que é uma maravilha, cada vez que uso parece que dá pra fazer um gato novo com os pelos. Os meus gatos detestam, mas tem outros que curtem. Comprei pela amazon e eles tem um site, http://www.furminator.com/

- Os gatos ficam banidos de entrar no quarto do bebê, sob o risco de levar um spray de água na fuça.

Mas tem que ser assim. Espirrar água na cara do bebê, passar furminator na roupa da sua esposa e rolo adesivo nos gatos só vai te trazer inimigos.

Em tempo, eu sou super-alérgico e até agora a Lucia não deu nenhum sinal de alergia. Pode ser coincidência, pode ser algum tipo de imunização ou ela pode ser secretamente filha do padeiro. Mas como diria nosso confrade Paiéquemcria, pai é... alguma coisa... esqueci.

E mais importante de tudo, jamais, jamais dê seu cartão de crédito aos gatos, nem deixe eles usarem sua internet, mesmo que eles peçam com cara de gatinho do shrek. O mesmo deveria valer para todos os outros membros da família, mas experimenta propor isso e você vai dormir na caixinha de areia.


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O monopólio da observação dos saltos quânticos de desenvolvimento, ou sai, sai!

Pois é. Estava todo feliz essa semana porque fiquei andando pela casa com a Lucia, segurando nas mãozinhas dela, que é uma verdadeira velocista e deve andar sozinha a qualquer momento. Sem ajuda nenhuma ela chega a dar três passos, até perceber que está andando e desisitir, ou anda a sala toda empurrando móveis, parece que quer redecorar a casa. Mas nossos passeios ainda eram com duas mãos e se eu tirava uma ela já se jogava no chão. Hoje de manhã a baixinha estava feliz pra lá e pra cá com a empregada, andando de dadas - e era uma mão só. Confesso que senti um misto de orgulho e ciúme louco, fiquei pensando se acharia algum bom motivo pra demitir a pobre moça. Aconteceu algo parecido uns meses atrás quando o pessoal da escolinha disse que colocava música e a Lucia dançava, coisa que não tinha feito em casa ainda. Falei pras berçaristas que isso era errado, que elas iam ver só, que escola não pode ser tão boa assim e elas riram. Mas vão ver só.

No campo da linguagem, ela fala água, papai, mamãe, bola, dá, maria, baby (?) e gato. Estranho só esse "baby", que a gente não usa em casa, exceto durante a gravidez, quando eu cantava "superstar" e "tree hugger" o tempo todo pra coitada da mãe dela. A trilha de Juno tocou em casa a gravidez toda. Lucia também repete o que a gente fala em versões muito parecidas mas ainda em total bebeês. Queria mapear melhor esse desenvolvimento da linguagem mas filho não é cobaia né.

Em tempo, eu canto mal, falta-me aptidão para a música, até campainha desafina quando eu toco. A Lucia vai levar algum tempo pra se dar conta disso, então por mais um ano ou dois eu posso continuar cantando em segredo músicas do Leonard Cohen pra ela dormir. Mas se alguém descobrir deve ser a gota d´água pra me denunciarem pro tal conselho tutelar.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

De como Romeu e Julieta escorregaram em bolhas de sabão

Saio da sala pra ir ao banheiro. A Lucia me segue. Pai e mãe acharam que o outro estaria de olho na pequena, que terminou no limbo. Quando saio do banheiro ela está bebendo do potinho de fazer bolhas de sabão. "LUCIA NÃO!!!", grito com tradicional desespero.

Respiro fundo e penso que afinal deve ser só água com sabão e que não é preciso nenhuma atitude drástica como induzir vômito ou levar pro hospital. Para assinar embaixo deste pensamento, pego o tubinho e dou um gole também. Horrível, horrível, mas parece apenas água e sabão.

A Ana tem a mesma idéia - experimentar o líquido - mas como uma boa mãe, liga logo em seguida pro veterinário, digo, pediatra e explica o ocorrido todo.

Em meio a risadas ele diz que está tudo bem mas que somos dois loucos e que se fosse algo mesmo venenoso, quem ia cuidar da Lucia com todos na casa passando mal?

Eu e Ana nos olhamos com aquela cara de culpa, de quem com intenções ótimas e mal-guiadas pisou no tomate.

No dia seguinte, como um tipo de compensação, fiquei soprando bolhas de sabão pra Lucia, que encantada, tentava aos gritos pegar as bolhas no ar e ficava intrigada quando desapareciam.

As bolhas de sabão, sabia o bardo, também são feitas de sonho e suas pequenas vidas são cercadas pelo sono.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

As bactérias não se comunicam em bebeês mas são mais eloquentes do que se imagina

Sim, existem várias doenças causadas por bactérias e não é bom que bebês lambam a sola dos sapatos, como a Lucia parece estranhamente atraída a fazer. Mas o mundo das bactérias é muito mais interessante do que parece.

Sem as bactérias no nosso sistema digestivo nós morreríamos de fome, e sem as bactérias na nossa pele, sei lá, algo horrível aconteceria também.
Pouca gente sabe que em número de células somos 10% humanos e 90% feitos de bactéria. Em quantidade de DNA, 1% humanos para 99% bactéria.

Claro que existem inúmeras bactérias "do mal", mas é preciso cuidado. Sabonetes bactericidas, por exemplo, agem como uma seleção natural, eliminando as fracas e permitindo que as fortes e resistentes se multipliquem. É um perigo com antibióticos também, mas ao contrário do sabonete bactericida, não recomendo que ninguém pare por conta disso.

Para sabe um pouco mais sobre as as pequenas ditas cujas e sua forma de comunicação, aqui um seminário do TED. Pra quem não conhece, TED são apresentações de pessoas brilhantes falando sobre coisas que as apaixonam. Sempre que eu assisto um eu me sinto mais inteligente. Tem TEDs traduzidos pro português aqui: http://www.ted.com/translate/languages/por_br

E o das bactérias:

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Lucia foi pro mar, do mar vieram fotos, das fotos veio um furacão...

Aqui as prometidas fotos do encontro entre a Lucia e a grande água com lágrimas de portugal.

parte 1: as fotos que ilustram o texto




Parte 2: A vida como ela é...

Papai é um ser de poucas serventias. Além de isca pra mosquito, aqui vemos mais duas de suas utilidades, cabide e fazedor de sombra, enquanto Lucia tenta sinalizar pra sua irmã mais velha que o local é um pouco raso pra mergulhar. Maria não enxerga direito os sinais de sua irmã pois está ofuscada pela brancura do padrasto, ironicamente um peixe fora dágua nesse ambiente ensolarado.

Quando estas fotos chegaram no email da mamãe, seguiu-se o seguinte diálogo:
- Você deu um caldo no bebê!
- Dei nada, só escrevi sobre isso de forma alegórica, juro que não mergulhei com ela na piscina!
- No mar. A Patricia mandou as fotos.
- Que fotos?
- As que ela está de baixo dágua e depois com uma carinha de afogada. E eu tive que ir pra uma reunião depois de ver essas fotos!!
- Que exagero, a Lucia estava ótima e segura, não sei o que tem nelas.
- A julgar pelas imagens você estava é tentando afogar o bebê enquanto eu ia pro mar com a Maria.
- Tudo photoshop, a gente se divertiu, tá!

E encontramos mais uma utilidade pro papai, que é dar à mamãe um senso de que sem ela papai vai causar alguma catástrofe. E a angústia de não estar em dois lugares ao mesmo tempo e ser (crer) indispensável em ambos.
O que a gente precisa pra ganhar um voto de confiança por aqui? Menos fotos?

"Pena que minha irmã foi embora, aqui tinha oportunidade de mergulho afinal. Deixe-me treinar com tranquilidade meu nado au-au, pai. Como a água está boa a propósito."

Papai e Lucia rumo ao chuveiro, seguido de piscina, seguida de uma semana de tranquilidade antes que tais fotos emergissem.


Ah, aproveito pra colocar aqui o link pro blog da Patricia Kaufmann,
minha madrasta que, além de culpada pelas fotos e a subsequente confusão, é também artista plástica.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Na dúvida entre a mulher-maravilha e o homem-aranha...



Ela escala como o homem-aranha mas sabe que o uniforme da mulher-maravilha é mais fashion. Aliás meu amigo Pedro Cirne está terminando de escrever um livro sobre a mulher-maravilha e seus criadores que parece ser nada menos que genial, uma história com detalhes saborosíssimos. O criador da personagem é o inventor do polígrafo na vida real - o detector de mentiras(não é coincidência que ela carregue um "laço da verdade" na cintura), e a própria mulher-maravilha foi inspirada tanto por sua mulher quanto por sua amante. Viviam todos juntos na mesma casa e depois que ele morreu, a amante sustentou a viúva e os filhos do casal pelo resto da vida ou algo assim. Mas falo de orelhada, estou só esperando o livro chegar nas livrarias...

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A pequena arrombadora joga hockey com Lacan



E Lacan, por sua vez, deixa a Lucia chegar cada vez mais perto...
Já o Mao-Tse-Tung está sempre no lado oposto da casa.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Lucia foi pro mar.

Prestes a levar as coisas para o carro e irmos para praia, já com minha pequena mochila no ombro, pergunto de quem é aquela mala gigantesca no meio da sala. Da Maria, fico sabendo. Aos oito anos as roupas não são menores? Mas não são só roupas, descubro que, além da coleção de gibis, uma série de outros objetos e brinquedos também gosta de ir pra praia, mesmo que no fim nem saia da mala. No jogo de Tetris que é arrumar o porta-malas do carro, desistimos de levar o carrinho. Pra onde a Lucia for passear, ela vai no braço.

No dia seguinte, quando ela acorda, faço a mamadeira e vou alimentá-la no deck, uma vista linda. Antes do fim da mamadeira já tinha alimentado todos os mosquitos da região, que devoraram meus pés mas pouparam a Lucia. Menos mal, exceto que passei o resto do feriado como um flamingo, apoiado em um pé e coçando com o outro.

Mas o ponto alto foi o mar. Depois de besuntá-la com protetor, levamos a pequena para a parte molhada da areia e ela se divertiu estapeando o espelho dágua e apertando a areia com as mãos. Transbordando de alegria e sem medo nenhum (ou noção de perigo), engatinhou na direção do mar e sentou na água rasa, sentindo o vai e vem das ondas do rasinho e dando risada (talvez por não ter colocado nenhuma água-viva na boca). Uma onda gigantesca, para uma formiga, chegou a desequilibrar a Lucia mas não a dar medo (nela). Se deixasse acho que ela continuava indo pro fundo. Tomou banho no chuveirão pra tirar areia e mais tarde entrou na piscina fria com papai, que foi o único da dupla a reclamar da temperatura da água. Sei que bebês mais novos sabem prender o fôlego debaixo dágua, mas preferi não arriscar, acho que ela passou dessa fase e dar um caldo no bebê ia estragar minha fama.

Eu não lembro da primeira vez que vi o mar, devo ter chorado e esperneado, mas nunca vou esquecer desse primeiro encontro entre o mar e a Lucia, aqueles olhos arregalados de quem acabou de ver algo enorme, barulhento e salgado, decidiu que queria brincar lá também e bateu palmas de felicidade. Afinal o mundo é dela.