A Lucia agora é um bebê-que-anda. Esses hífens são uma referência que só velhos pegam, de um tempo que super-heróis não tinham vergonha de usar colant roxo e de ter serventes coloniais. Na verdade eu não sou tão, digamos, vintage, a ponto de ter lido em quadrinhos de jornal o Tarzan, Mandrake e Fantasma(o roxo espírito-que-anda, que era vermelho no Brasil para economizar na gráfica), mas meus tios de Curitiba tinham umas coleções e quando eu visitava lia tudo menos "Tex".
Esse vídeo, em que não sabemos se a Lucia está aprendendo com o avestruz a resolver seus problemas (na verdade isso é uma lenda urbana), tentando dar cambalhota ou fazendo ioga é de antes dela andar. O típico vídeo tremido, com desnecessários zooms no gato e um trabalho de câmera digno de pigmeus bêbados epiléticos. Assistindo ao vídeo e lutando contra o enjôo, a cena me lembrou algo mas não sabia o quê. Então como mágica pendurada em um cipó, a lembrança me atingiu com o impacto de um anel de caveira.Eu tinha me mudado há poucos meses para Nova York, onde morei por três anos. Uma amiga de mestrado convidou alunos de várias religiões para um almoço na casa dela, seguido de festividades. A ocasião era uma data judaica que nunca tinha ouvido falar chamada Simcha Torah. Como uma fita de máquina de escrever ou um rolo de filme antigo, a Torá, livro sagrado dos judeus, precisa ser rebobinada quando chega ao final e a festa é sobre isso. Fomos para uma sinagoga que, em horários alternados, é também uma igreja. Inacreditável. Só em Nova York, com aqueles aluguéis caríssimos, o padre e o rabino são colegas de sacristia. Eu havia descoberto o lugar onde nascem as piadas, só faltava eles terem um amigo pastor e um papagaio de estimação.
A "Sinagreja" era antiga, muito bonita e estava todo mundo na rua, homens, mulheres, velhos e crianças dançando animadamente de braços dados, fazendo longas filas dançantes que iam pra lá e pra cá em diversos círculos, lai lai lai, hai hai hai. Me diverti horrores pulando que nem um louco, dançando can-can, mas depois desconfiei que as outras pessoas sabiam o que estavam fazendo e houvesse mesmo passos apropriados. Atraído pela possibilidade de me dar bem, afinal era solteiro e só em uma terra estranha, acompanhei uma amiga no trem. Não deu em nada, ela desceu e acabou casando com o filho do premiê de Israel. As mulheres me largam por cada roubada.
Então estava eu sentado nos degraus perto de Washington Square, onde dividia um micro-estúdio com um estranho estudante polonês de psicologia. Passa por mim uma turba de judeus ortodoxos, todos muito jovens e dois deles dão meia-volta e vêm falar comigo. Perguntam se sou judeu. Explico que sou ateu convicto, mas fora isso, pra outros efeitos, sim, pai e mãe. Dizem que estão indo pra uma festa, uma festa muito legal, a gente vai se divertir. Sem nada melhor pra fazer acabo acompanhando eles rumo ao Brooklyn.
Depois de passar pela quarta estação de metrô, atravessando a pé a ponte que liga Manhattan ao Brooklyn, indago qual trem eles querem pegar e ele me informa, casualmente, que eles não pegam metrô no sábado e que a gente vai a pé mesmo. E que era perto! Eu não sabia mas ainda teríamos umas quatro horas de caminhada depois disso para vencer os mais de sessenta quarteirões que ainda nos separavam da festa.
O caminho foi interessante. Me emprestaram um chapéu preto porque tinham vergonha da minha cabeça descoberta. Fiquei com ele porque parecia o Bono. Conversei com algumas mocinhas e em breve fizeram um cordão de isolamento entre eu e elas, como se pudessem ser corrompidas pela minha mera presença. Não seria impossível, já que tentei mesmo argumentar com eles sobre o absurdo de tudo isso. Debater religião com religiosos atesta que eu ainda era muito mané. Eles jamais iriam abrir mão de crer no seu papai noel de preto particular, o rebe.
Horas depois, chegamos à tal Sinagoga e a festa estava no final. Era a maior concentração de judeus bêbados que já vi, todos com o tradicional traje preto hassídico e muito alegres. As mulheres ficavam em alguma outra parte no andar de cima, fazendo ninguém sabe o que.
Todo mundo vinha conversar comigo, me senti o próprio messias, havia uma certa reverência e diziam que eu era “aquele que retorna”, que eu andei tanto e estava lá por alguma razão maior. Me contive pra não falar "vodka grátis". As crianças vinham encostar em mim e queriam ficar por perto. O tempo todo alguém colocava um chapéu na minha cabeça (o anterior foi retomado pelo dono) e me arrastava pro salão, onde tinha um monte de lai lai lai, hai hai hai e um velhinho em cima da mesa distribuindo bebida ao pessoal que fica dançando algo que definitivamente não era can-can em volta da mesa, com crianças nos ombros, possivelmente bêbadas também. Eu ia junto mas não conseguia beber quase nada. Me ofereceram emprego, lugar pra ficar e apesar de isso não ter sido dito, estou certo que alguém ia oferecer a filha em casamento cedo ou tarde. Alguns adolescentes me chamaram pra um canto dizendo que tinham vodka e não tinham nenhuma, ficaram é me enchendo de perguntas.
Vi um velhinho dando cambalhotas no chão como uma criança. E outro, e mais outro. Pensei “gostam mesmo da branquinha ou esse é o bloco do alzheimer”. Devem ter notado minha expressão porque vieram me explicar: “hoje é um dia em que os pés são mais importantes que a cabeça e que dançar é mais importante que rezar.” Aprendi depois que também é uma festa que fala do eterno ciclo de renovação, coisa quase budista ou taoísta sobre ciclos eternos, que mesmo a mais enrugada bisavó já foi uma menina serelepe e sedutora.
Esboçando cambalhotas a Lucia me lembrou de tudo isso, que ao ser um bebê-que-anda ela deixou pra trás o bebê-que-engatinha, que deixou pra trás o bebê-que-cabia-certinho-no-meu-antebraço. E é com estranha saudade que olho pra todas essas Lucias que emergem de si mesmas como cigarras e com que felicidade vi a ecdise de cada Lucia maior, mais esperta e mais interativa, segurando aquela curiosidade de quem quer espiar os próximos capítulos do livro.

Ah, adorei o seu post, muito interessante e cultural. Já fui a festas em sinagogas, mas nenhuma tão animada (não fui convidada, hunf!).
ResponderExcluirViva o ciclo da vida e viva a Lucia-que-anda! Vc já leu "Lúcia-já-vou-indo"? era um dos meus livros preferidos da infância.
"Lucia já vou indo" era um dos meus favoritos também! Tinha me esquecido completamente do livro até que a Lucia ganhou um de presente (valeu santiago!), fiquei emocionado ao ver as ilustrações, com aquela sensação de pensar em algo novamente depois de décadas. :)
ResponderExcluirLindo texto mais uma vez Renato. Também estou passando pelas Lucias e de vez em quando dá uma vontade voltar o relógio...
ResponderExcluirEu querendo correr com o relógio para ver minha Aninha fazendo essas piruetas e vc querendo voltar... acho que só vou querer voltar o relógico qndo ela virar adolescente! hehehehhe
ResponderExcluirÓtimo texto!
Parabéns!
Você não entendeu nada. Essa posição ela está pedindo um irmãozinho!
ResponderExcluirColoca ela na capoeira!!!!!
ResponderExcluirSerá que eles foram a pé para economizar a " condução" ?
ResponderExcluirLucia pode estar querendo dizer que plantar bananeira é mais legal que brincar com o macaquinho e está querendo ver vc plantando também. RK planta bananeira para mostrar para ela.
Um dos melhores posts que já li. Parabéns
Abço
ZZ
Watarimono , valeu! não sei se queria que o relogio voltasse mas poderia ir mais devagar pra curtir bem mais cada momento...
ResponderExcluirAna Ramone , o ideal seria um controle com "pause" e com "fast-forward". E ocasionalmente "mute"
Ronise , como assim? é tipo uma dança da chuva mas pra pedir irmão?
Tati , até tem capoeira na escolinha, quem sabe? o duro é depois ela crescer e virar capoeiromaníaca que nem você né!
ZZ , hahaha, boa. Na verdade os religiosos tem o sábado com dia de descanso e não podem nem usar coisas elétricas. Nesse sentido tenho a mesma opinião que o cientista Richard Feynman, que vc pode ler aqui:
"Vc só pode estar brincando, Mr Feynman!"
em inglês mas vale a leitura
A Maria sempre planta umas bananeiras na frente da Lucia, pode ter vindo daí a idéia. Mas, ei, ela gosta do macaquinho tá!!!
pra quem gostou, achei uma versão integral online do livro do Richard Feynman, "Surely You're Joking, Mr. Feynman!"
ResponderExcluiraqui:
http://www.gorgorat.com/
Muito bonito seu texto. Me emocionei com o último parágrafo.
ResponderExcluirSobre a posição, minha filha faz igualzinho. Uma vez, estava na cozinha e tentou fazer a mesma coisa sem apoiar as mãos no chão, o que lhe rendeu um hematoma enorme que depois se transformou numa pequena depressão. Uma semana depois, li num livro americano que crianças que levam batidas que provocam depressões na cabeça devem ser levadas imediatamente ao pronto-socorro. É claro que entrei em pânico e liguei para o pediatra, que, sensatamente, me disse que, se uma semana depois da batida ela estava bem, não havia com o que me procupar. (Uns dias depois, ela bateu a cabeça no pé da poltrona exatamente no mesmo lugar. Um galo gigantesco se formou - esses de desenho animado - e, depois disso a depressão sumiu. Ou seja, uma batida compensou a outra :)
Minha mãe e avó também dizem que é ela chamando um irmãozinho, mas desconfio que seja apenas uma conspiração das mulheres mais velhas da família que querem ganhar mais um ou uma (bis)neto(a).
Os bebês não nascem sabendo nadar? Então, vai ver também nascem sabendo fazer ioga...
Oops, não era pra ser anônimo o comentário anterior - apertei alguma coisa errada.
ResponderExcluirSei lá porque cargas d'aguas achei teu post emocionante ! Coisa mais linda tu descrevendo o crescimento da tua guria...
ResponderExcluirOlá
ResponderExcluirNão vejo a hora de ter a minha e ela começar com essas peripecias....
Adorei o post.....
E concordo com um dos coments, ela quer um irmão....rs
Lindo final de semana
bjussssssssssssssssssssssssssss
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirTambém sempre soube que essa posição da avestruz é para pedir um irmão...
ResponderExcluirAqui em casa, a Lulu sempre faz (pode até ver na foto do post da semana passada, aliás tô com saudade das suas visitas)mas como eu já estou, eu não, minhas trompas, completamente, "ligadas" e nada mais pode nascer por aqui, meu marido diz que deve ser treino para ser capoeirista...
Estou muito feliz em saber que a Smurfizinha agora pode fugir rapidamente quando o papai quiser pegá-la para dar um caldo!
Beijão Bochechudo
seus últimos posts estão mais impagáveis ainda, com todos esses vídeos surreais!!
ResponderExcluirlúcia é uma figura, mas como poderia não ser, com um pai desses???
e a mamãe?? também é impagável? aí ninguém segura esse bebê-que-anda mesmo!!! (essa da posição-chamando-irmãozinho é velha, do tempo da vovó!!! depois que eles começam a andar e fazer essas posições avestruz-ioga-capoeira sempre vai ter alguém que vai usar disso para sorrateiramente sugerir o próximo bebê... é batata.)
beijo!
hummm sei não mas popularmente se diz, que quandoa criança faz assim esta anunciando o irmãosinho qeu chega rsrsrs
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