Depois de quase um mês sem ver minha adorada enteada Maria, ela me telefona. Diz que está com saudades, que ficou feliz de saber que sempre vai ter uma cama pra ela onde quer que eu more, e me convidou pra ir assistir a peça dela na escola.
A peça era sete e meia. Às sete saio do escritório, um puta trânsito, pensei que não ia chegar a tempo, nem conseguir estacionar no maldito bairro da escola dela, o Itaim. Decido ir a pé, se apressar o passo, pensei, chego a tempo.
No meio do caminho começa a chover. Eu não acredito muito em guarda-chuva, a não ser que venha com uma espada samurai embutida. Começa a chover muito forte, e penso se não deveria correr um pouco. Depois de três ou quatro quase tombos, dois quase atropelamentos e um enfarto, chego na escola. Sete e meia em ponto.
Entro no teatro, pingando, e sou olhado pelos pais no auditório como se fosse o monstro do pântano. Sento, ainda recuperando o fôlego. Só meia hora depois uma moça aparece pra explicar como são as aulas de teatro. Depois, três videos mostrando as crianças na aula de teatro. Aí sim, quase oito e meia, começam as peças do terceiro, quarto e quinto ano. Óbvio que a que eu fui assistir é do quinto ano.
A peça do terceiro ano não tinha falas nem acabava nunca. Cada cena, narrada no microfone, era seguida de trechos de música em que as crianças pulavam pra lá e pra cá. Custava ter uma edição na peça? um pouco menos de música e seria até quase legal. Era sobre a cidade preta e branca. As próprias crianças escolheram seus personagens: Uma hippie e seu cachorro, um coelho, a dona da hípica (pasmem), a cientista, a policial, a dona da feira e a pintora.
A Maria veio pra platéia, sentou entre eu e o pai dela e ficou segurando a mão dos dois. Fiquei emocionado. Minha querida Maria.
A peça do quarto ano foi muito longa... não me lembro. Acho que estava tentando uma auto-asfixia anestésica.
E a peça do quinto ano era a batalha entre o otimismo e o pessimismo. Ainda bem que ninguém perguntou minha opinião sobre o tema. Os meninos eram uns canastrões. As meninas eram umas figuras, e a Maria era uma hippie, paz e amor, bicho. Depois uma advogada hippie (uma advogada da paz, olha que pertinente). Fiquei com a séria impressão que ela teria muito sucesso em qualquer uma dessas carreiras, hippie, advogada ou atriz.
E mais que tudo, fiquei muito feliz com a "volta da Maria". Morei com ela os últimos quatro anos e ela é quase como uma filha pra mim. Uma das coisas muito difíceis da separação foi ficar longe dela, e esse reencontro, no dia em que terminou meu suposto inferno astral, foi importante.
Ciscos Revoam.